domingo, 27 de março de 2011

Brasileiros vão à Argentina para estudar medicina

Vaga sem vestibular, mensalidade em torno de R$ 800, custo de vida barateado pela fragilidade do peso e a oportunidade de contato com outras culturas têm levado um número cada vez maior de estudantes brasileiros - acostumados a pagar até R$ 5 mil por mês e submetidos a um rigoroso processo seletivo - às faculdades argentinas de medicina.
 Faltam números oficiais a respeito, em órgãos do Brasil e da Argentina, mas estimativas do setor privado apontam a presença de 2,5 mil alunos somente em  Buenos Aires e até 15 mil nos países vizinhos do Mercosul.
 A maioria dos estudantes recorre à ajuda de empresas que fazem a intermediação com as universidades e agilizam a regularização de documentos. Uma delas, a paranaense Vive en Buenos Aires, começou em 2002 e hoje encaminha alunos brasileiros a 68 instituições de ensino médico na Argentina. Outro sinal da forte demanda brasileira - e do interesse argentino em explorar esse nicho - é a instalação de uma filial da Fundação Héctor Barceló (considerada a pior  Universidade) em Santo Tomé, cidade vizinha à fronteiriça São Borja, no Rio Grande do Sul.
 "Nos anos 90, recebíamos estudantes brasileiros, mas eram poucos e desatentos, sem vontade de aprender", diz Hernán Aldana, professor de histologia da Universidade de Morón, na periferia de Buenos Aires. "Hoje há uma quantidade muito maior, talvez pelo câmbio favorável, e mudou o perfil. Na minha turma, os alunos são empenhados e buscam criar vínculos afetivos com o corpo docente, convidando-nos sempre para almoçar na casa deles", descreve Aldana.
 Dos 170 estudantes de medicina que cursam o primeiro ano em Morón, 48 são brasileiros - paulistas e goianos, principalmente. Na próxima temporada, a universidade (privada) pretende destinar até cem vagas a estudantes que vêm do Brasil. 
 Em vez de vestibular, os pretendentes a uma faculdade pública na Argentina fazem o chamado ciclo básico comum, conhecido como CBC, um curso pré-graduação que dura cerca de um ano. Para quem quer seguir medicina, há ênfase nas aulas de biologia e química.
 Ao longo do curso, que já conta como primeiro ano de universidade, são aplicados exames regularmente. Só continua quem obtém nota mínima. Na Universidade de Buenos Aires (UBA), o curso de medicina é o mais concorrido: teve 5.986 inscritos em 2010. Em média, 20% desistem da carreira no próprio CBC, sem nem fazer todos os exames. Nas faculdades privadas, esse curso é mais rápido, em torno de três meses. Em muitas delas, os brasileiros conseguem até saltar a seleção, com uma prova para testar conhecimentos básicos.
 A facilidade na obtenção de uma vaga pode virar dor de cabeça mais tarde. "Um dos erros mais comuns é entrar com visto de turista e renová-lo a cada 90 dias. Se o aluno não regularizar sua situação até o fim do primeiro ano, corre o risco de complicar a revalidação do diploma no futuro", diz Kleber Rezende, fundador da Vive en Buenos Aires.
 Outro transtorno possível é a carga horária. No Brasil, o Ministério da Educação exige um mínimo de 7,2 mil horas, enquanto boa parte parte das faculdades argentinas tem cerca de 6 mil horas na grade curricular. Por isso, tornou-se comum que as empresas especializadas em intermediar o contato entre os alunos brasileiros e as universidades locais façam um complemento "por fora". A Isped, de São Paulo, oferece um pacote por R$ 1.200 mensais. Sem ele, o custo cai para R$ 850, que é apenas o pagamento da faculdade.
 Além da vaga em uma instituição privada, esse pacote inclui aulas de espanhol na chegada e até o fim do primeiro semestre, e 3 mil horas adicionais durante o curso, em disciplinas cujo conteúdo varia muito conforme o país de ensino - como medicina do trabalho, legislação e código de ética. "Para facilitar a revalidação do diploma, reforçamos o conteúdo brasileiro, como parte da grade curricular e com professores vindo do Brasil", diz Valdir Carrenho, coordenador pedagógico da Isped.
 Los estudiantes de Medicina de la UABC, en Ensenada


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